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Alta nos índices de violência na Costa Rica preocupa moradores do país

  • Foto do escritor: Portal Abya Yala
    Portal Abya Yala
  • 24 de out. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 25 de out. de 2025

A região sofre com inúmeros problemas, entre eles a corrupção e o narcotráfico  


Por Filipe Nascimento e João Provasi

Costarriquenhos se preocupam com sua segurança em meio as violências (Foto: Gary Coronado/LA Times)
Costarriquenhos se preocupam com sua segurança em meio as violências (Foto: Gary Coronado/LA Times)

Os índices de violência urbana na Costa Rica aumentaram consideravelmente desde 2020. Antes considerada a “Suíça” americana, em razão da sua fama pacifista e elevado desenvolvimento social, o país enfrenta agora os desafios provocados pela nova dinâmica do narcotráfico na região.


Nos últimos anos, a América Central deixou de ser a “rota” por onde passavam os narcóticos de países sul-americanos para se tornar um polo de produção. Com um clima adequado para a atividade, países como Honduras, Guatemala e Belize são usados para o cultivo da folha de coca. 


Segundo Luísa Ochoa Chaves, doutora em relações públicas, um fator determinante para essa nova dinâmica é a proximidade com os Estados Unidos. “É um problema da região. A conexão da Costa Rica com redes internacionais de tráfico e sua localização geográfica na América Central a tornam um ponto de trânsito para o norte”, explica.


Nessas transformações, a nação tem presenciado o crescimento da violência em seu território. Se antes a população andava tranquila pela capital San José, hoje, a insegurança atrapalha essa rotina. Um contraste considerável em comparação com a história recente da Costa Rica.


Costa Rica: da guerra civil a um Estado sem exército

Em 1948, as desavenças provocadas pelo resultado das eleições presidenciais deram início a uma Guerra Civil que durou 44 dias e terminou com a vitória de José Figueres. No ano seguinte, foi promulgada a nova constituição, que separou os poderes, estabeleceu o Estado de Direito e aboliu o exército, iniciando uma era de pacifismo e mediação de conflitos na região.


Com essa guinada, o país se voltou às necessidades essenciais e se projetou diante dos indicadores latinos. Em 2018, O Observatório de Desenvolvimento da Universidade da Costa Rica afirmou que essas medidas pacifistas permitiram o aumento de seus investimentos em saúde e educação. 


Por essa razão, o país de 5 milhões de habitantes alcançou a  62° posição no último ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, com 0,833 (Muito Alto), o que reflete na política nacional, já que a Costa Rica é uma das repúblicas presidencialistas mais estáveis do continente.


Entretanto, o “paraíso tropical”, que chegou a ser comparado com a Suíça devido seus valores de paz e bem-estar, entrou na mira do governo Trump depois da divulgação de um relatório que aponta o país como um dos principais responsáveis pelo tráfico de drogas na América Central e no Caribe.


A triste face da violência e do crime na AL

A dinâmica do narcotráfico na América Latina é marcada por fatores socioeconômicos, políticos e naturais. O elevado índice de desigualdade social acarreta ao aliciamento para o crime, que, devido à corrupção, acaba se fortalecendo. Além disso, as vastas áreas de floresta nativa são usadas para o plantio e produção das drogas.


Com instituições fragilizadas, os países ficam reféns das organizações criminosas que se infiltram e coordenam suas atividades politicamente. De acordo com um relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, 2019), o crime organizado e o comércio de drogas contribuem para o aumento de casos de homicídio.


Qual é a situação costarriquenha?

Em decorrência dessa nova realidade da região, a população da Costa Rica passou a conviver com a criminalidade. Em entrevista para a CNN, Juan Carlos Chavarría, morador da capital, relatou os casos de violência. "Antes era silêncio. Hoje, é visível o crime e as autoridades não podem estar em todos os lugares”, comenta.


No ano de 2022, o jornal The New York Times publicou uma reportagem sobre a crise de segurança pública na Costa Rica. Segundo o texto, o país chegou a superar por um tempo o México como principal ponto de transporte de cocaína, além de presenciar uma aumento de 53% na sua taxa de homicídios. 


O jornal destaca que um dos principais fatores que culminaram na ascensão da violência regional é a corrupção. Na análise feita pelo Índice de Percepção da Corrupção de 2024, na América essa prática fomenta crimes ambientais, promove a violação dos direitos humanos e facilita a entrada das organizações criminosas na política, fragilizando a democracia.


Essas interferências prejudicaram a continuidade das políticas voltadas ao desenvolvimento social da população. Na análise de Luísa Ochoa, o país vive atualmente um período de regressão. “O desmantelamento do Estado de bem-estar social e o aumento da desigualdade contribuíram para esse problema”, pontua.


A pesquisadora critica ainda a ineficiência das políticas voltadas à população jovem. “A falta de educação e oportunidades para os jovens os deixam mais vulneráveis a serem atraídos para o crime e a delinquência”.


Além do setor político, a influência criminosa em empresas de transporte e nos portos da Costa Rica contribuem para a logística das drogas. O porto de Moín Container Terminal, localizado no oceano Pacífico, se tornou um centro de distribuição de cocaína e fentanil, sendo controlado por carteis mexicanos.


Em uma tentativa de combater esses crimes, o país aprovou uma reforma constitucional para extraditar cidadãos acusados de narcotráfico e terrorismo. Com isso, o ex-ministro da Segurança, Celso Gamboa Sanchez, 49, teve sua extradição acatada, já que ele foi acusado pelo Departamento de Justiça Americano de integrar uma rede de narcotraficantes que atuam nos Estados Unidos.


Como é o governo do país?

A pressão do governo Trump sobre as nações latinas estão refletidas em falas e atitudes que indicam uma nova “Guerra às Drogas”. Internamente, o governo de Rodrigo Chaves é criticado pela ineficiência na gestão, marcada por ter o maior índice de assassinatos da história do país; com 588 em 2022; 907 em 2023; e 872 em 2024.


Rándall Zúñiga, diretor da Agência de Investigação Judicial (OIJ), recomendou uma revisão nas estruturas de combate ao crime, especialmente com o assassinato de Géiner Gómez, agente do orgão. "Se não houver mudanças em breve, haverá áreas  onde a polícia não poderá entrar, as tarefas básicas de qualquer Estado não poderão ser realizadas ou executadas, porque quem fará isso serão os grupos criminosos”.


Apesar das recomendações, Rodrigo Chaves vem minimizando a situação, afirmando que o problema “não é tão grande quanto eles querem fazer parecer". Nesse cenário, o país fica refém de uma disputa política que tem como objetivo decidir quem é o responsável pela crise pública. 


Nesse vai e vem, algumas ações se concretizaram, como a criação da Jurisdição Especializada contra o Crime Organizado e o lançamento do projeto intitulado "Costa Rica Segura Plus", que é um modelo mais elaborado de um projeto anterior que não deu certo. Porém, essas medidas impactam diretamente o orçamento do Estado.


Possibilidades de um futuro melhor

O crescimento da violência não se resume à Costa Rica, sendo identificado em países como Chile e Uruguai, que sempre se destacaram na questão da segurança pública na América Latina. De fato, a solução dessa problemática só será possível com a união de todas as nações e a efetiva participação do poder público.


Mesmo com a influência americana na região, com acusações até da existência de narcoestados, é necessário compreender as individualidades de cada país e a disposição do crime organizado em cada território, integrando tecnologia, preparo e operacionalização das ações de combate.


No caso da Costa Rica, o fortalecimento dos serviços de segurança interna é uma atitude importante. Todavia, Luisa reforça que é dever das lideranças democráticas olhar para essa questão. “Acredito que a crise educacional tem sido negligenciada. É essencial lidar com isso para reduzir a insegurança”. Para ela, o caminho é trazer de volta o espírito de vanguarda social que sempre foi a marca registrada do país,  conhecida tradicionalmente pelo termo “pura vida” entre os costarriquenhos.

1 comentário


Maria Cristina Gobbi
Maria Cristina Gobbi
19 de dez. de 2025

Um desafio. Ficou excelente. Parabéns

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