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Arlett Pamela: da Bolívia ao Brasil

  • Foto do escritor: Portal Abya Yala
    Portal Abya Yala
  • 18 de nov. de 2025
  • 7 min de leitura

Por: Grupo 5 - Alice Burégio e Letícia Reis


Arlett Pamela Aro Mendoza | Foto: LinkedIn/ Reprodução
Arlett Pamela Aro Mendoza | Foto: LinkedIn/ Reprodução

Diretamente da Bolívia, Arlett Pamela veio ao Brasil movida por um sonho: estudar e buscar na química uma solução para um problema de seu país, mas principalmente de sua cidade, Cochabamba. 

O interesse pelo mundo químico surgiu durante as inscrições para a faculdade. A estudante gostaria de cursar licenciatura em química, mas acabou escolhendo Engenharia Química, na Universidad Mayor de San Simón (UMSS), por acreditar ser o mesmo curso. Essa pequena confusão a fez se apaixonar por algo novo: a amplitude da engenharia, que a permitia seguir na área de processos industriais e tirar a prática laboratorial para aplicá-la em contexto reais. 

Quando estava em seu último ano de faculdade, na Bolívia, Arlett viveu um período de incertezas sobre como prosseguir com sua carreira. No processo, dúvidas assombraram sua mente: não sabia se deveria permanecer em seu país e terminar a graduação, buscar oportunidades em outro lugar ou desistir do curso, sua cabeça pensava em todas as possibilidades possíveis. Até que, na época, por incentivos de seus pais e professores, a engenheira decidiu concluir seu curso em engenharia química e traçou uma escolha em sua mente: realizar seu mestrado no Brasil. 

Atualmente, com 30 anos e já situada no Brasil, Arlett faz mestrado na área de Engenharia Civil e Ambiental, com pesquisa voltada para a poluição e o controle populacional. Seu foco está no tratamento de efluentes, aplicando conhecimentos sobre operações unitárias que conhecia desde a sua graduação. 

Para escolher sua especialização, Arlett refletiu um dos principais problemas de sua cidade, a contaminação de rios e lagos por efluentes liberados por indústrias. Na Bolívia, a Lei nº1333, conhecida como Lei do Meio Ambiente, deveria, desde abril de 1992, garantir bases para a proteção e preservação do meio ambiente e dos recursos naturais, determinação reforçada pelo Regulamento em Matéria de Contaminação Hídrica (RMCH - Decreto Supremo nº24176). Porém, de acordo com a boliviana, essa questão não é acompanhada de perto, e, em cidades como Cochabamba, a indústria têxtil deixa marcas e consequências no cotidiano da população. 

Vivenciando as dificuldades deste problema, a engenheira percebeu que só teria uma solução se alguém partisse de algum lugar, e esse alguém seria ela. E assim, desde seu TCC até seu mestrado, ela tem trabalhado no processo de absorção de corantes têxteis, que são descartados diretamente nos rios de sua cidade. Com seus experimentos, ela busca provar que há uma contaminação por lama vermelha - um resíduo industrial alcalino e tóxico, resultado do processamento da bauxita para obter alumínio.

Para escolher a Universidade Estadual Paulista (Unesp), seu principal critério foi a existência de uma linha de pesquisa que se encaixa exatamente no que ela busca. Seu programa de mestrado abrange diferentes áreas de pesquisa e o foco da que ela desenvolve está na gestão ambiental e tratamento de poluentes, de forma que ela possa aplicar seus conhecimentos de engenharia química no estudo do controle de poluição. 

De todas as questões, uma das maiores dificuldades da discente foi a o português. Antes do mestrado, a aluna já possuía contato com o Brasil desde seu período de estágio, que foi realizado no Instituto de Ciência e Tecnologia da Unesp de Sorocaba, no interior de São Paulo. Nessa etapa, ela ainda não conhecia o idioma e dependia do Google Tradutor. Mas, para entrar no mestrado, ela se desafiou a estudar a gramática e a pronúncia de certas palavras, entretanto ao se deparar com a prática, outro problema surgiu: o medo. Esse tem sido enfrentado aos poucos por Arlett, que já o encara há um ano e a colocou no estágio do “portunhol”.

A entrevistada, em uma análise comparativa, reconhece que a Unesp possui um maior investimento nas pesquisas, principalmente nas áreas de tecnologia, meio ambiente e ciências sociais. A mestranda, que é formada em uma universidade pública da Bolívia, afirma que em seu país não há essa comoção com pesquisas. Sua universidade de graduação é autônoma e recebe investimento do Estado, mas não é suficiente para impulsionar e motivar os estudantes. Para ela, o conceito de iniciação científica (IC) foi estranhado, por não ser algo comum em seu país. Arlett identifica bolsas para a produção de IC como algo essencial para a inclusão dos alunos que precisam enfrentar uma dupla jornada no mercado de trabalho e nos estudos, uma vez que, possibilita o foco na parte acadêmica de sua vida.

Outra diferença são os estágios, que, na Bolívia, em sua maioria não são remunerados, exigindo que o aprendiz gaste com alimentação, transporte sem nem ao menos receber um título. Para ela, no Brasil, as oportunidades são mais oportunas e em maior quantidade. 

Quando se fala do seu contato com a Bolívia, não sobra dúvidas sobre seus sentimentos: saudades é o que mais a aflige – saudades da família, das comidas e das tradições. A escolha de vir para o Brasil foi muito bem pensada, seu programa de mestrado é de dois anos e, por conta disso, Arlett tenta sempre que possível viajar para Bolívia ver sua família e matar a saudade. O tempo de viagem que ela gasta é em torno de quatro horas, então para ela e sua família fica mais acessível possíveis visitas. 

Suas experiências no estágio a fizeram perceber que tinha muitas pessoas estrangeiras que passavam pela mesma situação, então ela fez funcionar. A comunicação com sua família, quando não consegue ir para Bolívia e Espanha – atual moradia da sua mãe – , é feita pelo WhatsApp ou através de chamadas online. Apesar de ter contato frequente com a família, sua saudade não diminui, nem a saudade da sua cidade natal e país.

Uma de suas outras saudades é a comida. Apesar do Brasil proporcionar comidas típicas e saborosas, nada substitui, para Arlett, a culinária do seu país. Por ter seu dia inteiro ocupado com estudos e trabalhos, a engenheira se alimenta principalmente no restaurante universitário, que não oferece uma variedade de comida diferente de arroz e feijão. Para ela, no início foi complicado se adaptar pois estava acostumada a consumir uma diversidade de comidas, principalmente o milho, que foi algo que a fez sentir a diferença entre os países. Aqui ela só encontrava o milho tradicional e o de canjica, já na Bolívia ela consumia milho de diferentes tipos e variações. 

As bases alimentares em seu país são bem versáteis, variando entre sopas de amendoim, de macarrão, frango com pimenta, carne bovina, carne suína, pratos feitos com grau de quinoa – alimento básico e versátil consumido em saladas, sopas, etc – . Para ela, não existe um pilar da alimentação específico lá, mas a batata é algo frequentemente utilizado nos pratos – chamada de “emília” em quéchua, o idioma originário – , principalmente por ser muito saborosa. 

Com relação a tradições, a engenheira também ressalta como uma grande saudade. Aqui no Brasil, ela não identifica tantas tradições quanto as que tem na Bolívia, que ocorrem a cada mês praticamente. Um exemplo de tradição que sua família pratica é o “Dia de Todos os Santos”, que ocorre entre os dias 1 e 2 de novembro como uma forma de honrar seus entes falecidos. As famílias preparam uma mesa com as comidas favoritas da pessoa que faleceu, suas massas alternam entre formas animais, sol, lua e escadas. As escadas representam o caminho para que a alma da pessoa falecida possa subir para o céu. 

Ao arrumar toda a mesa com alimentos, coloca-se velas ao meio dia de primeiro de novembro para receber as almas. No segundo dia, dois de novembro, as famílias vão para onde o familiar falecido foi enterrado para se despedir da alma, levando consigo tudo que foi arrumado da mesa. No local, as pessoas ao redor oram e rezam para a alma do ente querido e a família retribui com uma parte da comida ou bebida preparada para o evento. É uma tradição feita por vários e muito conhecida em seu país. 

Uma outra tradição que Arlett diz sentir falta e que tenta trazer para o Brasil é uma que ocorre na véspera do Natal. Assim como alguns brasileiros, os bolivianos possuem a tradição de limpar toda a casa antes do natal para que no ano que vem a casa esteja limpa e renovada. Uma outra tradição mais cultural é K’oa, um ritual ancestral andino que envolve oferendas à Pachamama (Mãe Terra) e outras divindades. A K’oa é um conjunto de coisas que a família separa para queimar na terra com carvão, como uma forma de agradecimento para o mundo espiritual e a natureza, um costume que Arlett não consegue manter no Brasil porque não possui os recursos necessários.

Apesar das partes que faltam, a boliviana reconhece a importância do Brasil em sua trajetória pessoal, acadêmica e profissional: “Eu agradeço muito ao Brasil, por dar uma bolsa para uma pessoa que não é do Brasil. Eu estou muito grata com o Brasil, porque às vezes eu falo ‘eu sendo estrangeira,  tenho essa oportunidade que um brasileiro pode ter’. Eu tenho que ser muito agradecida por minha professora e  minha orientadora,  porque ela confia em mim, confia no meu trabalho. Então, eu tenho que responder bem, estudar, sacar boas qualificações, fazer um bom exame de qualificação e avançar na pesquisa,  que vai ajudar muito a Unesco e o Brasil”. 

Sua experiência internacional também ressignificou a percepção que ela tinha da relação dos bolivianos com a Bolívia.  O país vem enfrentando uma crise econômica e muitas vezes a situação contribui para uma desvalorização até mesmo da parte dos lá nascidos. Ao observar a situação do Brasil, Arlett percebeu que é necessário valorizar também os recursos naturais, tanto profissionalmente quanto sentimentalmente falando. 

Tendo em vista o melhor dos dois “mundos”, a estudante ainda não sabe de forma concreta o que será de seu futuro, mas tem em mente algumas ideias: voltar para seu país de origem e buscar um emprego focado no tratamento de águas – na parte industrial ou na parte de ensino – , ou permanecer no Brasil e seguir para um doutorado. 

Arlett Pamela Aro Mendoza tem usado sua vida acadêmica para se aventurar em diferentes áreas, países e cuidar de suas origens. Seus próximos passos são desconhecidos até mesmo por ela, mas diversas portas seguirão se abrindo e recompensando seu esforço, saudade e dedicação. 


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