De um povoado no Peru à Unesp Bauru: conheça Sheyla Del Castillo
- Portal Abya Yala
- 17 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
A estudante intercambista de arquitetura contou ao Abya Yala sobre sua infância, sua adaptação no Brasil e o que a levou a escolher ficar por mais tempo que o planejado
por Camila Possente e Isabel Assis - Grupo 2

No interior do Peru, em um pequeno povoado com menos de 1500 habitantes, uma menininha que gostava de brincar de bonecas sonhava em conhecer mais do mundo. Sheyla Del Castillo, agora com 21 anos, não sabia ainda, mas seu futuro guardava grandes aventuras e novas paisagens – tudo isso proporcionado pela educação.
Natural de Cabanaconde, um dos vinte distritos que formam a província de Caylloma, pertencente à Região de Arequipa, Sheyla viveu a infância rodeada de pessoas que valorizavam muito o estudo. Seu pai, trabalhador na área de construções, sabia que aquele era o caminho a ser seguido para que mais oportunidades aparecessem, então não mediu esforços para que a filha tivesse acesso a um estudo de qualidade. Foi assim que, ainda adolescente, Sheyla se mudou sozinha para a cidade de Arequipa – “que, se eu não me engano, é a segunda maior do Peru”, ela diz, em entrevista ao Abya Yala –, que ficava a seis horas de distância da sua cidade natal. Sua família a apoiou o tempo inteiro, e seu pai ainda foi um dos fatores que influenciaram a menina a escolher, ao se formar no ensino médio, cursar arquitetura.
O anseio por conhecer outros países também veio através de sua família: sua mãe, formada em enfermagem, recebeu uma oportunidade de trabalhar na Argentina ainda muito jovem. Depois de um tempo, ela voltou para o Peru – mas esta história despertou em sua filha o desejo de voar também. Sua primeira parada foi o Brasil. Na Universidad Nacional de San Agustín, onde estudava até o ano passado, Sheyla tomou conhecimento de um convênio de programa de intercâmbio, e assim chegou à Unesp Bauru. As dificuldades se fizeram presentes desde o primeiro instante: a jovem partiria sem a ajuda financeira de nenhuma das duas universidades, e em casa, sua família via aquela jornada com apreensão – afinal, ela tinha apenas vinte anos, não conhecia uma alma sequer no Brasil e ainda enfrentaria o muro invisível, porém imponente, da língua estrangeira. Aos poucos, seus pais foram se convencendo de que a oportunidade era boa demais para deixar passar, e Sheyla guarda com carinho na memória a fala de sua mãe: “tudo bem, é experiência pra você. Eu vou sofrer, mas é experiência pra você”.
Assim que o sonho do intercâmbio começou a tomar forma, em outubro de 2024, ela decidiu se preparar da melhor forma: se inscreveu em um curso de português oferecido por sua faculdade. Quando o dia da viagem chegou, já compreendia bem a língua e tinha um pouco mais de confiança na pronúncia. Depois de chegar ao Brasil e se ver rodeada de falantes de português, Sheyla descobriu o ritmo das frases e as diferenças sutis entre os sons de R, e hoje em dia, seu sotaque é quase imperceptível.
No fim, a jovem determinada acabou não vindo sozinha. Durante as primeiras semanas de adaptação, ela dividiu um Airbnb com sua mãe – mas depois disso, a hora da despedida chegou, e Sheyla viveu a tristeza de ver sua mãe retornando ao Peru. Hoje, ela mora em uma república com outras seis meninas.
Os amigos feitos em Bauru foram extremamente importantes para a adaptação da jovem no Brasil. Foram seus colegas da Unesp e seu padrinho de intercâmbio que a ajudaram a encontrar o lugar onde mora atualmente, ensinaram a usar as linhas de ônibus e mostraram os lugares culturais da cidade. A peruana lembra com muito afeto do dia em que, junto com outras intercambistas, visitou o jardim botânico de Bauru. “Foi muito legal, porque aí fomos com a madrinha de uma das meninas, que estudava biologia. Alguns amigos delas foram também, e como estudavam biologia, sabiam muito sobre tudo e explicavam pra nós. Tinha muitas plantas, muito diversas, de todos os tipos. Eu fiquei chocada com a quantidade. Minha cidade fica no meio de um deserto, quase”.
A facilidade em se criar uma comunidade dentro da universidade e a integração entre pessoas de cursos diferentes possibilitada pelo câmpus de Bauru são justamente alguns dos pontos que fizeram Sheyla gostar tanto da Unesp. Segundo ela, até o acesso ao câmpus de sua universidade no Peru é mais complicado: “Na minha outra universidade era muito mais rígido, ela ficava no meio da cidade e tinha uma catraca na porta que você só podia passar se tivesse a carteirinha do estudante”. Aprofundando-se nas diferenças, ela cita também que a relação entre professores e alunos é muito mais próxima e casual aqui. Ela se mostra muito agradecida por ter encontrado, na Unesp, professores prestativos que fizeram de tudo para que ela entendesse a matéria – e fica aliviada também, por poder chamá-los pelo nome sem ter que dizer o título de “arquiteto” antes.
Sheyla teve a opção de ficar seis meses ou um ano no Brasil. A princípio, escolheu seis meses, mas ao fim do primeiro semestre de 2025, viu que havia gostado tanto da experiência que sentiu vontade de prolongá-la por mais um pouco. Escolheu ficar, e agora, além das benécies dessa aventura, lida também com o mal sofrido por qualquer um que passe tanto tempo longe de casa: a saudade.
Além da falta da família – com quem ela fala diariamente, por videochamada –, a saudade que a peruana sente dos amigos de faculdade também é grande. “Eu já tinha formado um vínculo muito forte, e às vezes sinto muita falta deles. Em algumas matérias, o número de alunos não bate e eu termino sobrando, aí só consigo lembrar dos meus amigos e como eles me puxavam para fazer as matérias. Ou, também, a questão de eles já estarem fazendo estágio, progredindo na vida laboral…”.
Em breve, o segundo e último semestre de Sheyla no Brasil se encerrará. Ao fim do primeiro semestre, quando ela ainda não sabia que voltaria à Bauru para terminar o ano letivo, a jovem se despediu da cidade e de seus amigos com o sentimento de que ainda faltava tempo. Agora, espera voltar ao Peru com a sensação de missão cumprida. Para o futuro, Sheyla planeja continuar com a internacionalização, e defende que todos os estudantes que possuem interesse tenham a chance de fazer o mesmo: “você aprende a conhecer não só outra cultura, outro jeito de viver, outro jeito de perceber o mundo, mas também você se conhece mais. Eu achava que me conhecia, mas hoje me conheço muito mais”.





Comentários