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Economia solidária e cooperativismo em El Salvador: união que impacta

  • Foto do escritor: Portal Abya Yala
    Portal Abya Yala
  • 31 de out. de 2025
  • 5 min de leitura

Desde 1914, as cooperativas salvadorenhas mudam a vida dos envolvidos com o movimento


Por: Grupo 5 - Letícia Reis e Maria Clara Alves


O movimento cooperativista une não somente os trabalhadores, mas suas famílias também (Imagem: Pixabay)
O movimento cooperativista une não somente os trabalhadores, mas suas famílias também (Imagem: Pixabay)

A economia solidária, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho, corresponde a um conjunto de empresas e organizações que produzem bens, serviços e conhecimentos para atender às necessidades da comunidade, que sofre com as consequências sociais resultadas pelo capitalismo.


Nesse cenário, em El Salvador as cooperativas são dignas de destaque. O setor, que se baseia no desenvolvimento social e econômico, tem crescido como um prato cheio para que os salvadorenhos enfrentem crises e promovam soluções para problemas comunitários. 


O cooperativismo é um segmento – que pode até mesmo ser lido como doutrina ou teoria econômica – em que pessoas se associam para gerir uma empresa de modo que supra necessidades sociais, econômicas e culturais, visando ampliar a qualidade de vida, por meio do acesso aos direitos básicos dos cooperados e de seus entornos. 


Em El Salvador, a história das cooperativas começa em 1914 por um grupo de sapateiros em San Salvador; depois, foi fundada La Cooperativa Algodonera, em 1938. O movimento chegou ao sindicato dos servidores públicos e foi bem recebido, pois passou a ser uma forma de defesa contra o lucro ilícito dos patrões. 


Juarez Xavier, jornalista e mestre em ‘Integração da América Latina’, diz que o processo começa pela população desassistida: “Ela [população] precisa ter renda e trabalho e está fora do sistema de mercado de trabalho que foi constituído, exclusivamente, para a população branca, que chega nesse período [...]. E essa população tem que se virar. Então, eles vão criando o que eu gosto de chamar de espaços de fazeção. Eles já faziam coisas e eles continuam dando continuidade a esse processo.”


Para manter a integridade e estabilidade da vertente de trabalho que crescia, em 25 de novembro de 1969, a Assembleia Legislativa promulgou o Decreto nº 560, que deu origem à criação do Instituto Salvadorenho de Desenvolvimento Cooperativo (INSAFOCOOP), um órgão dirigente das cooperativas e que, apesar de ser de direito público, possuía autonomia econômica e administrativa. No mesmo dia, foi decretada a primeira Lei Geral de Associações Cooperativas.

Produção manual de calçados  (Imagem: Pixabay)
Produção manual de calçados  (Imagem: Pixabay)

Por não possuir orçamento, a organização passou a funcionar apenas em 1 de julho de 1971. Em, 2024, a Assembleia Legislativa votou a favor da dissolução da instituição para que ela funcione de maneira descentralizada com seus setores bem definidos, a fim de promover um cooperativismo mais eficiente e competitivo.


De acordo com dados de 2020, havia aproximadamente 1.309 cooperativas registradas em El Salvador, tendo uma média de 604.389 membros, em que 52% são mulheres e 48% homens. Já em 2022, o número de cooperativas ativas subiu para aproximadamente 1.379, somando uma média de 675.016 membros, sendo a porcentagem de gênero a mesma. Devido a falta de centralização, a coleta de dados tem sido afetada. 


Grande parte das associadas são voltadas para a área de banco e seguros, seguido pelo comércio e transporte. Outros setores que se destacam no movimento são a indústria alimentícia e agricultura, indústria, habitação, serviços profissionais e educação.

Gráfico de setores do cooperativismo (Imagem: Letícia Reis)
Gráfico de setores do cooperativismo (Imagem: Letícia Reis)

O movimento cooperativista está presente em todas as grandes áreas da economia e, devido a sua amplitude, é possível enxergar seu papel na geração de empregos, união entre empresas e redução de pobreza, promovendo o desenvolvimento regional  e, dessa forma, repercutindo economicamente no país todo. 


Durante as crises enfrentadas pelo país, as cooperativas têm se mostrado um porto seguro diante de problemas sanitários e econômicos, desempenhando um papel fundamental, pois priorizam as necessidades locais e assim remediam parte da adversidade em diferentes estâncias. 


O movimento garantiu a subsistência de diversas famílias em infortúnios como o Conflito Armado Salvadorenho, a pandemia do COVID-19 e as tempestades tropicais Amanda e Cristobal, contribuindo com arrecadação de doações, uso de salões comunitários para abrigo, voluntários para reconstrução de casas danificadas, entre outros. Em situações como essas, os cooperados apoiam-se uns nos outros e seguem firmes para reerguer-se. 


O jornalista diz ainda, que esses espaços possibilitam a construção de uma identidade ancestral para diferentes povos: “[...] a relação que você tem com o trabalho nessa chamada esfera inferior da economia é muito diferente do que você teria em qualquer outro país, porque as pessoas reconstituíram sua humanidade a partir do trabalho que não era o melhor trabalho do mundo, mas era de sobrevivência”.


Os entrelaços entre economia cooperativista, solidária e criativa no contexto salvadorenho


Para Juarez Xavier: comunicação e cultura’ pela Universidade de São Paulo, cooperativismo, solidariedade e economia criativa podem, sim, andar lado a lado na América Latina; e a justificativa tem raízes históricas.


Antes de avançar no texto, saiba que a economia criativa configura uma série de práticas que transformam saberes (individuais, ancestrais, pautados em vivências ou costumes culturais) em produtos e serviços de valor.


Nas palavras do entrevistado, a economia criativa é acessada de maneiras distintas, de acordo com a história de cada país. “É necessário observar como é que se deu a experiência desses povos ancestrais que foram excluídos do sistema de produção”, completa.


As vivências como impulsionadoras da indústria criativa latino-americana


Entre alguns dos principais motores do setor criativo salvadorenho, destacam-se o desenvolvimento do zero a partir do empoderamento de talentos locais e o uso da propriedade intelectual de indivíduos que, quando colocada em prática, dá origem a produtos inovadores e de alto valor cultural.


É importante pontuar que uma ideia não é colocada em prática sozinha e uma parte da execução passa pelo que Juarez chama de ‘redes de comunicação’, que integram “processos de organização cooperativistas desterritorializados; a prima, a irmã, a tia, que vão criando rede”. Ele ressalta que valores e saberes ancestrais não tomam forma sozinhos, sendo necessário o amparo de toda a comunidade para tirar as aspirações do papel.


A união é a base do cooperativismo (Imagem: Pixabay)
A união é a base do cooperativismo (Imagem: Pixabay)

No mais, os ramos do cooperativismo e da criatividade em El Salvador têm sido alvo de interesse de autoridades e organizações econômicas nacionais e internacionais, que vêem potencial de impacto comunitário na oportunidade de profissionalização e digitalização do que é desempenhado pelos trabalhadores.


Outro conceito que caminha lado a lado com a definição de ‘economia criativa’ no país é a ‘economia naranja’, que, em El Salvador, implica na transformação de ideias e visões em serviços culturais de impacto.


Principais desafios do segmento cooperativista em El Salvador


Reconhecidas por lei na Constituição da República de El Salvador, art. 114, as associações cooperativas salvadorenhas têm ampliado (em número e em impacto social e econômico) a sua atuação dentro do país. 


Na atualidade, as cooperativas são, também, isentas dos impostos de renda e municipais em todo o território nacional. Porém, questões como decretos e projetos de lei despertos em áreas de atuação dificultam a implementação de melhorias para o setor.


Mais um dos desafios que vêm à tona, no país, é o respeito à propriedade jurídica das entidades cooperativas, visto que elas não são ONGs (e, por vezes, não são levadas a sério na esfera pública por conta disso).


1 comentário


Maria Cristina Gobbi
Maria Cristina Gobbi
19 de dez. de 2025

Excelente. Parabéns ao grupo.

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