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Novo guia de educação da UNESCO: Como lidar com passados violentos?

  • Foto do escritor: Portal Abya Yala
    Portal Abya Yala
  • 13 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Guia lançado em setembro apresenta meios de compreender o legado por meio da educação

 

Por Rodrigo Matias

© UNICEF/UNI177576/Richter
© UNICEF/UNI177576/Richter

 

Em setembro de 2025 a UNESCO lançou um guia de políticas para lidar com passados violentos por meio da educação. A partir dessa abordagem, o guia busca servir como um recurso para apoiar os formuladores de políticas educacionais por todo o mundo. Dentro do contexto sulamericano, há uma expectativa do guia poder ajudar como uma fonte de resistência e legado para as histórias de vida dos povos.

 

O guia foi articulado por mais de 40 educadores de todo o mundo, e teve influência dos programas prévios de educação para a cidadania global e na recomendação de 2023 sobre educação, paz, direitos humanos e desenvolvimento sustentável. Dessa forma, a UNESCO entende que o objetivo principal é “incentivar o engajamento proativo, ao invés de aumentar as segregações sociais”.

 

Boa parte das problemáticas sobre passados violentos estão ligadas com a vulnerabilidade social vivenciada pelos jovens, como explicado no relatório da UNESCO Juventude, Violência e Vulnerabilidade Social na América Latina. Essa condição é o resultado da relação negativa entre os recursos dos jovens, tanto material, quanto simbólico, e o acesso às estruturas de oportunidade.


O que são passados violentos?

Segundo o guia, passados violentos são constituídos por conflitos armados internos, guerras civis, ditaduras militares, violência estrutural e colonialismo. Todas essas formas de violência geram diversas consequências para as populações, como cisões sociais, traumas coletivos e narrativas conflitantes que contribuem para o silenciamento e negligenciamento de partes da história.

A coordenadora geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Andressa Pellanda, explica a importância de compreender a natureza dos passados violentos: “Estes passados não se resumem a episódios históricos isolados, mas constituem narrativas profundas e estruturantes de uma sociedade, marcadas por violência sistêmica e opressão que ecoam no presente através de desigualdades sociais”.

Para ela, a prática do ensino assume uma condição vital no enfrentamento desses legados. “A educação opera na desnaturalização da violência, demonstrando como as injustiças atuais são fruto de construções históricas, e no rompimento do silêncio que frequentemente encobre essas narrativas”, afirma.


Relação entre o guia e o contexto latino-americano

Apesar da universalidade do guia, para que suas diretrizes tenham eficácia, é necessário passar por uma adaptação a depender do contexto de cada cultura. “Ao contexto latino-americano , cujas realidades são profundamente marcadas por violências fundantes específicas. Esta adaptação exige centralizar a questão racial, reconhecendo que a herança escravocrata ainda presente nas elites é a violência estruturante por excelência das nossas sociedades”, pontua Andressa.

Para a cientista política, é necessário evidenciar os silenciados pela história oficial, privilegiando as narrativas indígenas e negras e suas resistências. Mas para ela, apenas isso não é necessário. “ Paralelamente, é crucial ir além e valorizar as histórias de agência desses grupos, destacando suas lutas contínuas como parte integral da nossa história”, adiciona.

Sobre a construção de uma memória viva para servir como denúncia e também como ferramenta de conscientização, um instrumento importante são os museus, memoriais e sítios históricos. “Estes lugares desempenham um papel insubstituível, atuando como agentes ativos na formação de uma consciência histórica crítica. Eles materializam a memória, tornando tangível o que pode ser abstrato nos livros. São espaços que convidam cada cidadão a refletir sobre seu papel na interrupção dos ciclos de violência e injustiça que, originados naquele passado doloroso, ainda insistem em persistir”, salienta Andressa.


 Qual deve ser o papel do professor no processo de lidar com essas narrativas conflitantes em sala de aula?

Para a coordenadora da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, o professor precisa ir além de um mero transmissor de conhecimento, para ser um facilitador crítico e ‘mediador de memórias’. “Cabe a este profissional curar um repertório diversificado de fontes e narrativas, assegurando que as vozes dos grupos historicamente silenciados ocupem um espaço central no debate. Seu papel inclui moderar diálogos potencialmente difíceis que emergem dessas narrativas conflitantes, transformando o conflito em uma oportunidade de aprendizado”, constata.

 

Mas para isso, é preciso que sejam criados ambientes pedagógicos éticos e seguros, para que os alunos possam lidar com informações intelectualmente complexas e emocionalmente desafiadoras. “O educador, portanto, deve ser um problematizador da realidade, conectando o passado violento com questões do presente, e atuar como um facilitador, acolhendo as reações dos estudantes sem suprimi-las. Essa atuação exige, por sua vez, uma postura de aprendiz permanente, com constante reflexão sobre os próprios vieses e pressupostos”, conclui.

1 comentário


Maria Cristina Gobbi
Maria Cristina Gobbi
19 de dez. de 2025

Muito bom. Parabéns ao grupo.

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