Estudo revela solo da América Latina degradado
- Portal Abya Yala
- 18 de out. de 2025
- 5 min de leitura
Mapeamento pode apontar caminhos para políticas voltadas a sustentabilidade
Por Júlia França

Um estudo publicado como artigo na revista Communications Earth & Environment (Nature) em fevereiro de 2025 apontou a falta de políticas sustentáveis para os solos latinos. A pesquisa foi o primeiro mapa de saúde do solo da América Latina e Caribe (ALC) e indicou que 38% dos solos da região são considerados não saudáveis, ou seja, degradados; enquanto 28% moderados e apenas 34% apresentam boa saúde.
O mapeamento foi liderado por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e do Centro de Estudos de Carbono na Agricultura Tropical (Ccarbon), ambos da USP e contou com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Em entrevista, o professor doutor da Esalq e co-autor do estudo Raul Roberto Poppiel afirma que, apesar de revelar um cenário preocupante, a pesquisa também “indica caminhos concretos para restaurar a vitalidade do solo, base invisível de toda a vida terrestre".
Através de dados de sensoriamento remoto (imagens de satélite) processados com inteligência artificial, a pesquisa avaliou a saúde do solo de toda região latina e caribenha.

O estudo criou mapas de alta resolução com um índice de saúde do solo que integra indicadores físicos, químicos e biológicos como porosidade total, água disponível para as plantas e estoque de carbono. Segundo o professor, um solo saudável é aquele que funciona como um ecossistema vivo, sustentando plantas, animais e seres humanos de forma contínua.
Para classificar a qualidade dos solos, o estudo avalia estes em cinco funções: disponibilidade de nutrientes e equilíbrio químico; retenção e circulação de água; armazenamento de carbono e biodiversidade; suporte físico às plantas e resistência à erosão e degradação. Portando, o artigo descobriu que solos insalubres dominam terras áridas e savanas com exposição superficial frequente, enquanto zonas equatoriais úmidas apresentam condições saudáveis.
No Brasil, áreas como Caatinga e Cerrado são consideradas as mais críticas. Isto acontece pelas questões naturais das regiões como chuvas irregulares, solos rasos e longos períodos de seca. Para Poppiel, algumas soluções para tornar esses solos mais resilientes destacam-se a cobertura permanente e rotação de suturas e o manejo hídrico. Ele sugere que essas ações podem ser aplicadas apesar do clima, a fim de absorver choques climáticos e sustentar atividades econômicas sem colapsar ecossistemas.
A Amazônia, embora coberta por vasta biomassa vegetal, em geral apresenta índices médios a baixos de saúde do solo, o que reforça a vulnerabilidade do bioma e a urgência de medidas de conservação. “Apesar da exuberância da vegetação, a fertilidade natural desses solos é limitada. A floresta recicla nutrientes rapidamente, mas o solo em si é frágil e, quando desmatado, perde vitalidade em pouco tempo”, explica o especialista.
Já no resto da América Latina, regiões como norte do México, partes do Chile e Argentina enfrentam problemas ao mesmo tempo em que países como Venezuela e Colômbia lideram a lista de extensão de solos saudáveis
IMPORTÂNCIA DO ESTUDO
Estudos como esse são fundamentais para reforçar o papel central dos solos na agenda global de sustentabilidade e ampliar o conhecimento sobre o tema na região latino-americana, contribuindo para que as discussões avancem de forma mais consistente. O agrônomo destaca a importância da realização de estudos dessa natureza de um ponto de vista socioeconômico do continente : “A América Latina é uma potência agrícola, mas o pilar dessa riqueza, o solo, está se deteriorando silenciosamente. Quando o solo perde saúde, toda a cadeia socioeconômica se fragiliza”.
O professor dá atenção também à falta de dados e mapeamento, afirmando que grandes áreas da ALC são “pontos cegos” científicos, tornando impossível o planejamento de políticas de uso do solo. “A degradação do solo não é apenas um problema ecológico, é um desafio de desenvolvimento”, conclui.
O Brasil, em especial, é hoje o quarto maior produtor científico do mundo em saúde do solo. Dessa forma, “liderar esse debate é reivindicar o papel de protagonista científico e ambiental que o país já exerce de fato, mas precisa se consolidar politicamente. O desafio, agora, é transformar esse conhecimento em ação, pois, no fim das contas, o futuro da América Latina será tão fértil quanto os seus solos”.
Em 2025, por exemplo, o Brasil será palco de eventos globais cruciais: a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30), em Belém; o Simpósio Latino-Americano e Caribenho de Pesquisa sobre Carbono do Solo (LAC Soil Carbon), no Rio de Janeiro e o 34º Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, em São Luís do Maranhão. Em 2026, o Ccarbon sediará o 10º Simpósio Internacional de Matéria Orgânica, evento que ocorrerá pela primeira vez na América Latina.
“Com o Brasil sediando a Conferência, o tema da saúde do solo deve ganhar centralidade. O país tem a oportunidade de colocar o solo no centro da agenda climática, mostrando que sem solos vivos não há segurança alimentar, nem balanço de carbono possível”, enfatiza Poppiel
“A saúde do solo é fundamental não apenas para a produção agrícola, mas também para o equilíbrio dos ecossistemas, o que a torna crucial para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, afirma o professor Maurício Cherubin, vice-coordenador do Ccarbon e um dos coautores do estudo em entrevista ao Jornal da USP.

O artigo ainda revela que as questões do solo são particularmente urgentes na América Latina e no Caribe devido a erosão do solo, perda de biodiversidade e uso e gestão insustentáveis da terra, incluindo desmatamento e perturbação florestal como por exemplo a exploração da madeira e incêndios florestais.
Para reverter décadas de degradação, o autor do estudo acredita que existem ações a serem tomadas tanto no campo jurídico, com a regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, quanto no campo prático, realizando a recuperação de áreas degradadas e expansão do Plantio Direto, por exemplo.
Por fim, o professor Raul Poppiel conclui que “a saúde do solo é o alicerce da segurança alimentar, da estabilidade climática e da economia verde. O diagnóstico apresentado pelo relatório “Soil Health in Latin America and the Caribbean” é claro: quase 40% dos solos da região estão doentes. Mas o mesmo estudo mostra que as ferramentas para curá-los já existem, estão na ciência, no manejo sustentável e na vontade política”.
Este texto foi produzido para a disciplina da Professora Doutora Maria Cristina Gobbi. O grupo é formado pelos alunos do quarto semestre de Jornalismo da Unesp Bauru: Bruna Tímaco, Isabela Oshiro, Júlia França, Livia Queiroz, Luana Lara, Luiz Elisbão, Luiza Lima, Marina Longhitano e Melissa Inoue.





Excelente. Parabéns ao grupo.