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FIM DA ERA DE ESQUERDA NA BOLÍVIA: DIREITA DEFINIRÁ FUTURO DO PAÍS

  • Foto do escritor: Portal Abya Yala
    Portal Abya Yala
  • 20 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

Após 19 anos de governos esquerdistas, segundo turno será disputado apenas por candidatos da direita


Por Marina Longhitano


As eleições presidenciais da Bolívia vivem um momento histórico. O primeiro turno, realizado em 17 de agosto, mudou o futuro do país e redefiniu seu cenário político. 


Dois candidatos de direita disputarão o segundo turno, que ocorrerá em 19 de outubro: o senador Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão (PDC), ficou em primeiro lugar com 32% dos votos, seguido de Jorge “Tuto” Quiroga, ex-presidente e membro da coalizão Aliança Livre, com 26%.


Bandeira da Bolívia (Foto: jlrueda/iStock)
Bandeira da Bolívia (Foto: jlrueda/iStock)

Os últimos vinte anos da esquerda

Eleito em 2005, Evo Morales fez história tornando-se o primeiro líder indígena no país com maior população tradicional da região e chegou a ser reeleito em 2009. Quando tomou posse pela primeira vez, elaborou uma nova Constituição que permitia dois mandatos consecutivos, e também garantia mudança no nome do país de República da Bolívia para Estado Plurinacional da Bolívia.


Em 2014, Morales não poderia se reeleger porque já acumulava duas gestões, mas justificou mais uma reeleição apoiando-se na dupla nomenclatura da nação, ou seja, alegou que tinha governado apenas a “República da Bolívia”, como se fossem países distintos.


Ainda em 2016, o então presidente manifestou interesse em mais uma reeleição em 2019, que foi negada em uma votação popular. Mesmo assim, ele recorreu ao Tribunal Constitucional e conseguiu autorização para ser candidato, sendo contestado pelos oponentes. 


O Supremo Tribunal Eleitoral divulgou, na noite das eleições, que a apuração dos votos estava 83% concluída e que a tendência era de um segundo turno. No dia seguinte, com 95% de progresso na contagem, foi divulgado que Morales venceria no primeiro turno por uma margem apertada. 


A oposição apontou que haveria fraude nos resultados, a Organização dos Estados Americanos (OEA) confirmou, e os bolivianos foram às ruas. Em resposta às manifestações, os apoiadores do presidente também saíram  para “defender a democracia e evitar um golpe de Estado". É nesse cenário que Evo renuncia em 10 de novembro de 2019.


Embora os bolivianos reconheçam os avanços desses governos, como o crescimento econômico durante a década de 2010 com exportação de gás natural ao Brasil e à Argentina,  a tendência autoritária de Evo Morales e insistência em passar por cima da lei desgastam a imagem do político. Além disso, ele está sob ordem de prisão relacionada a estupro de vulnerável e tráfico de menores. 


Quem assumiu o cargo após a renúncia foi Jeanine Añez até novembro de 2020, quando Luis Arce, atual presidente, assumiu a liderança.


Evo Morales, presidente da Bolívia por três mandatos consecutivos, de 2006 à 2019 (Foto: Dean Mouhtaropoulos / Getty Images)
Evo Morales, presidente da Bolívia por três mandatos consecutivos, de 2006 à 2019 (Foto: Dean Mouhtaropoulos / Getty Images)

A virada de chave da esquerda para direita

O partido que esteve presente nas quase duas décadas de esquerda foi o Movimento ao Socialismo (MAS), Morales tornou-se uma figura fortíssima dentro dele e construiu sua imagem diretamente relacionada ao partido. 


Com a crise de 2019 e a renúncia, Arce, também aliado do MAS, assumiu a presidência com apoio de Evo. No entanto, com o novo governo, o partido alinhou-se mais às propostas do novo presidente, o que desagradou Morales - que formalizou desfiliação em fevereiro de 2025. 


Desse jeito, o partido ficou dividido entre os apoiadores de cada político e a esquerda colapsou. Nas eleições deste ano, os novos partidos de Morales, EVO Pueblo e Partido de Ação Nacional Boliviano (Pan-Bol), não foram aprovados e o ex-presidente foi impedido de concorrer.


Assim, em um protesto, ele convocou que seus apoiadores votassem nulo e afirmou que o pleito não tem legitimidade. Com a esquerda fragmentada e em crise, a direita domina o segundo turno das eleições deste ano.


Rodrigo Paz, à esquerda, e Jorge Quiroga, à direita (Foto: Aizar Raldes e Martin Bernetti/AFP)
Rodrigo Paz, à esquerda, e Jorge Quiroga, à direita (Foto: Aizar Raldes e Martin Bernetti/AFP)

Bolívia pós-esquerda: desafios e impactos futuros

O Professor Doutor Maximiliano Vicente, mestre em História da América Latina pela Unesp, doutor em História Social pela USP e professor no curso de Jornalismo da Unesp, analisa o futuro da nação com tais candidatos. “Creio que eles vão seguir a cartilha neoliberal. Privatizar, abrir o país para o mercado internacional, exportar, diminuir a presença do Estado, favorecer a decisão privada”, diz.


A Bolívia conta com a maior população indígena do continente e o poder dessas comunidades está em jogo, segundo Max. O docente acredita que as demandas desses grupos não serão atendidas e que eles, na verdade, poderão ser massacrados. 

“Você gasta menos do que arrecada, controla a inflação, mas cria um problema social grave, porque você corta os projetos sociais”, explica sobre as possíveis medidas adotadas pela direita. 


Outra preocupação está na postura do novo presidente. Mesmo que o resultado do segundo turno ainda não tenha sido definido, é certo que o novo líder seguirá os ideais da direita. “O que a gente espera é que eles não se deixem levar pela onda neoliberal, o que eu acho que vai ser impossível. Se eles entrarem nessa onda, eu diria que vai ser um caos”, alerta, lembrando que as comunidades tradicionais possuem traços culturais distintos do resto da população, e isso pode significar resistência às mudanças.


O professor comenta também sobre a possibilidade de novos governos autoritários, agora com o pretexto de que a esquerda pode tentar um golpe de Estado, comparável ao que Getúlio Vargas fez no Brasil. “Criar um inimigo, um fantasma é uma delícia, porque você acaba com ele e faz ele aparecer quando te interessa. Quando você tem que justificar uma medida, você justifica; quando não tem, não justifica. Tudo é culpa do outro, você não tem culpa de nada”, diz. 


“A gente espera que os deputados criem um pouco de vergonha na cara e pensem que tinha uma população carente, muito pobre, muito explorada e massacrada durante muito tempo, mesmo no governo Evo Morales. É um país muito carente de políticas sociais”, complementa sobre a situação da Bolívia.




Este texto foi produzido para a disciplina da Professora Doutora Maria Cristina Gobbi. O grupo é formado pelos alunos do quarto semestre de Jornalismo da Unesp Bauru: Bruna Tímaco, Isabela Oshiro, Júlia França, Livia Queiroz, Luana Lara, Luiz Elisbão, Luiza Lima, Marina Longhitano e Melissa Inoue.



 
 
 

1 comentário


Maria Cristina Gobbi
Maria Cristina Gobbi
19 de dez. de 2025

Muito bom. Sugiro não utilizar imagens de agências de notícias. Elas não liberam para fins acadêmicos, tendo normalmente direitos autorais.

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