top of page

Guerra de Bolas de Fogo mantém viva a chama da tradição em El Salvador

  • Foto do escritor: Portal Abya Yala
    Portal Abya Yala
  • 19 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Em clima contagiante, o povo de Nejapa transforma agosto em um espetáculo de fogo, memória e identidade cultural.


Por: Grupo 5 - Letícia Reis e Maria Clara Alves


Pessoa, com bandana vermelha, erguendo as mãos com luvas em chamas | Crédito da imagem: iStock, via TV BRICS
Pessoa, com bandana vermelha, erguendo as mãos com luvas em chamas | Crédito da imagem: iStock, via TV BRICS

O relógio bate oito horas da noite na rua principal do município de Nejapa — localizado a 30 quilômetros da capital San Salvador —, e pedaços de pano envoltos por arame e banhados de querosene ou gasolina iluminam as mãos de quem os seguram como estrelas flamejantes.


Esse é o cenário da tradicional Guerra de Bolas de Fogo salvadorenha, também chamada de La Recuerda, por locais, a qual, em 2019, foi declarada ‘patrimônio cultural’ pelo Ministério da Cultura de El Salvador.


Neste ano, ocorreu a 103ª edição do evento que reuniu locais e turistas, presentes tanto para assistir, quanto para arremessar as bolas ardentes de um lado para o outro.


O evento reúne locais e estrangeiros que são atraídos pelo caráter único da celebração que ocorre anualmente, entre 30 e 31 de agosto. Ambos os dias são voltados para a celebração da cultura e história nejapenses, com destaque para manifestações artísticas que incluem músicas e expressões folclóricas no formato de imagens, esculturas e pinturas faciais.


Na noite do dia 30, no átrio da igreja, 15 mil cheirosos tamales — prato típico de El Salvador — são preparados, despertando o clima festivo na população. No dia seguinte, a programação dá lugar a uma missa realizada em homenagem ao padroeiro local, São Jerônimo.


Uma particularidade dessa expressão cultural é a diversidade de narrativas sobre a real origem da guerra de bolas de fogo, que conta com versões tanto históricas, quanto religiosas.


Segundo com a primeira, passada de boca a boca por gerações de nejapenses, a data é uma forma de honrar a memória daqueles que perderam suas vidas ou precisaram se deslocar do vilarejo de Nixapa (correspondente à atual região do vilarejo de Nejapa), destruído com a erupção do vulcão San Salvador em 1658.


Homem com mão enluvada e em chamas | Crédito da imagem: Ministerio de Cultura
Homem com mão enluvada e em chamas | Crédito da imagem: Ministerio de Cultura

Outra visão sobre a La Recuerda é que ela teria nascido de uma luta entre São Jerônimo e forças malignas materializadas na figura de um demônio, que teriam atacado o santo enquanto ele rezava, o que deu início a um confronto.


O santo é exibido em um carro alegórico que percorre as principais ruas da cidade e é decorado com imagens que remetem a um vulcão em erupção. Terminado o desfile, a rua em frente à igreja dá lugar à batalha de bolas de fogo. 


E, assim, caminhos de fogo são formados pelo chão, iluminando o ambiente e atiçando as reações da plateia. As manifestações se expressam não apenas nas apresentações, mas também nas vestimentas utilizadas.


Na hora do jogo, formam-se duas equipes, apelidadas de boleros. Mas antes mesmo do apito inicial, os voluntários são orientados a irem encapuzados e equipados com vestimentas antichama, como coletes, máscaras e luvas de jardinagem — que ficam imersas em gasolina durante um mês. Há quem também queira se enfeitar com pinturas faciais, que remetem a caveiras e esqueletos.


O público não se agita apenas com as batalhas; a presença de representações de animais, como vacas de ferro com faíscas e bandeiras coloridas, também desperta gritos da multidão, juntamente das apresentações de fogos de artifício. 


A comemoração é relevante em diversos aspectos. Para os comerciantes, representa uma nova fonte de renda. Para a população e os visitantes, é uma forma de entretenimento, lazer e de envolvimento com a cultura local. 


Desde 2023, outros eventos promovidos pela Casa de la Cultura de Nejapa — instituição cultural local administrada com o apoio do Ministério da Cultura de El Salvador — foram incorporados à tradição, como o Festival do Rio de Cinzas, ampliando a imersão cultural vivenciada pela comunidade durante os dias de celebração.


Essa foi uma maneira encontrada pelo país para reforçar uma de suas diversas identidades culturais, a qual permite que a memória do seu legado seja preservada e não se perca com o tempo. 


O destaque que o encontro anual possui para os locais, da comoção local à responsabilização pública, não passa despercebido para os envolvidos: “essa tradição vive em nossos corações, não há nada assim em nenhum outro lugar, é a nossa história, que preservamos”, conta Antonio Romero em reportagem da TV BRICS. 




1 comentário


Maria Cristina Gobbi
Maria Cristina Gobbi
02 de nov. de 2025

Muito interessante, não conhecia essa manifestação.

Curtir
bottom of page