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México encara dificuldades na educação: socióloga Sylvia Schmelkes fala sobre principais desafios enfrentados nas regiões rurais e indígenas

  • Foto do escritor: Portal Abya Yala
    Portal Abya Yala
  • 19 de set. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 26 de set. de 2025

Em entrevista ao Portal Abya Yala, socióloga mexicana compartilha sua visão sobre o CONAFE  (Consejo Nacional de Fomento Educativo), a educação indígena e a escassez de professores.


Por: Grupo 2 - Camila Possente e Maria Eduarda Rocha


(Menina mexicana estudando  - Foto: reprodução Freepik)
(Menina mexicana estudando - Foto: reprodução Freepik)

Sylvia Schmelkes é uma das figuras mais importantes no cenário contemporâneo de pesquisa educacional mexicano. Socióloga atuante na área da educação desde 1970, a pesquisadora da Universidad Iberoamericana da Cidade do México já presidiu o Instituto Nacional para a Avaliação da Educação (INEE), trabalhou para a UNICEF e foi coordenadora-geral de educação intercultural e bilíngue na Secretaria da Educação do governo do presidente Vicente Fox.


Agora, poucos dias depois do aniversário de 54 anos do CONAFE, Sylvia expõe as dificuldades enfrentadas por esse projeto – e pela nação mexicana como um todo – na manutenção da qualidade da educação em áreas rurais e indígenas.

(Sylvia Schmelkes - Foto: reprodução Unesco)
(Sylvia Schmelkes - Foto: reprodução Unesco)

O que é o CONAFE?

O Conselho Nacional para o Desenvolvimento da Educação (em tradução livre) foi um órgão criado para atender às necessidades educacionais de crianças e adolescentes que vivem em pequenas comunidades rurais ou indígenas. Segundo Sylvia, essas comunidades – com menos de 100 habitantes – somam cerca de 98 mil unidades.


“O CONAFE nasceu porque o Ministério da Educação Pública, não atendia pequenas comunidades rurais. Não se justificava colocar, nesses lugares, uma escola com séries até o 6º ano, professores e um diretor. Então, o CONAFE tem um currículo diferente, porque todos os seus centros são multisseriados, as comunidades são muito pequenas. Há apenas um professor”, explica.


O processo para se tornar professor nos centros do CONAFE é bastante diferente de qualquer coisa que se tem no Brasil, a começar pelo fato de que, no México, professores não se formam em universidades, mas sim em escolas normais. O aluno de ensino médio – que, lá, começa no 9° ano – que decidir se tornar professor e lecionar em áreas rurais receberá um treinamento de seis semanas para fazer isso e deverá permanecer desempenhando esse papel por dois anos enquanto recebe uma bolsa. Após o fim desse período, a bolsa continua até que o aluno conclua seus estudos.


Sylvia demonstra preocupação em relação a novas iniciativas do governo que acabam afastando e desestimulando os jovens a escolherem lecionar no CONAFE.  “O projeto educacional do governo mexicano agora é dar muitas bolsas de estudo, eles dão bolsas para todas as crianças do ensino fundamental e médio. E para o bacharelado também. Existe uma bolsa que é para quem não está na escola, que se chama Juventude Construindo Futuros, que é para aprender a trabalhar em uma empresa, ou microempresa, ou um campo agrícola. E aí o problema é que tem muitos, muitos jovens com essa bolsa, que paga muito mais do que a bolsa do CONAFE. Então os jovens estão indo para lá em vez de ir para o CONAFE, e os professores não querem ir para as áreas rurais. Não há incentivos”.


Desafios da educação indígena


O México também enfrenta problemas para encontrar ou formar professores qualificados para atender aldeias indígenas. Sylvia, grande defensora da educação bilíngue e intercultural, conta que realizou, enquanto presidente do INEE, uma avaliação de conhecimentos culturais e linguísticos nativos para professores interessados em lecionar crianças indígenas. Em algumas regiões, porém, não havia quem passasse no teste.


“Para ser professor indígena é necessário falar a língua, conhecer e respeitar a cultura. Há cada vez menos crianças que falam seu idioma, porque o projeto educacional da espanholização tem sido tão bem-sucedido que os jovens não falam mais suas línguas maternas”.


As políticas para formar professores voltados a essas regiões que também sejam etnicamente indígenas são muito recentes. Em 2013, Sylvia ajudou a elaborar um programa que formava professores bilíngues e multiculturais, mas mesmo assim a categoria enfrenta dificuldades.


“O problema é que, quando você quer elevar o nível dos professores indígenas, percebe que eles vêm se arrastando por uma má qualidade educacional vinda de sua própria educação primária e secundária. E então eles não passam nos testes. Temos o dilema: eu melhoro a qualidade do ensino ou garanto que os professores falem sua língua nas áreas indígenas? É um fenômeno muito complexo, extremamente complexo”, comenta. 


Apesar de grande parte dos centros do CONAFE estarem em áreas de povos originários, durante muito tempo o programa não ofereceu educação em línguas indígenas. A filha de Sylvia, Quetzalli Schmelkes, é diretora de um projeto piloto que pretende mudar essa situação: no estado de Chiapas, região mais pobre e com o maior número de habitantes indígenas do país, as matérias da área de conhecimento das ciências naturais são ensinadas nas línguas nativas mais importantes da região. 


A socióloga conta orgulhosa: “As crianças estão aprendendo a língua delas e estão aprendendo na língua delas. Isso preserva o idioma, porque o problema das línguas indígenas é que a escola as deslocou e destruiu. Esse projeto se chama ‘Aprender en mi Lengua’, e é muito bonito”.


Desafios da educação nas regiões rurais


Nas pouco populosas áreas rurais do México o plantio e a produção de drogas se concentram, ameaçando a paz e a segurança dessas regiões. O crime organizado tem gerado consequências diretas na escassez de docentes do CONAFE: professores de fora não querem atuar nesses territórios devido à falta de proteção, e pelo mesmo motivo, instrutores locais querem migrar para as zonas urbanas o mais rápido possível.


O crime organizado dificulta também que os adolescentes dessas regiões continuem estudando e até mesmo que  escolham seguir carreira na docência. O status que envolve a prática criminosa – além das armas, dos caminhões e da possibilidade de intimidar pessoas – é muito atraente para os jovens que desejam ficar ricos rapidamente. 


“É uma coisa extremamente triste que a aspiração das crianças, desde tenra idade, seja serem assassinos. E ainda há outro problema: o crime organizado precisa de jovens, e os jovens interessados não são suficientes. Há um recrutamento forçado, eles te convidam, te enganam e te prendem com um emprego que em teoria vai te pagar bem e você fica com eles. São mecanismos de escravidão, isso se eles não te matarem, como já aconteceu”, lamenta Schmelkes.


O governo mexicano está preocupado com isso?


Para a professora Sylvia, a resposta mais simples é “não”. Faltam medidas abrangentes para combater a falta de professores, especialmente no campo e nas aldeias, onde há má qualidade e escassez.


“Sempre digo que, para as zonas rurais, devem ser enviados os melhores professores que sejam recém-formados. Porque o problema dos professores é que, quando se casam e têm filhos, querem que seus filhos frequentem escolas urbanas, não querem mais ficar em áreas rurais.”


A pesquisadora comenta ainda que seria necessário ainda um maior incentivo para manter esses docentes recém-formados e solteiros por um tempo maior. Ela diz que uma alternativa seria o governo estabelecer com esses professores o compromisso de permanecer lá por 3 anos e, durante esse tempo, pagar o dobro do que pagam aos professores de outras regiões. E depois desses 3 anos os docentes poderiam escolher onde lecionar. Mas para Sylvia, esse plano ainda é utopia. 


Os moradores das áreas afetadas por essa escassez têm demonstrado preocupação com o problema. O povo mexicano, segundo a professora Sylvia, valoriza muito a educação e faz muitos sacrifícios para que seus filhos frequentem a escola – e, por isso, quer que eles recebam educação de qualidade.


A adaptação à realidade local também é de muito apreço pelas comunidades afetadas. Sylvia Schmelkes conta que, ao consultar uma aldeia indígena sobre suas necessidades educacionais, conseguiu traçar um panorama sobre a importância dada por elas à educação.


“Nós constatamos que os indígenas valorizam muito a escola. Em muitos casos eles a conquistaram, lutaram para tê-la e a construíram. O governo manda um professor e eles dão valor porque é como a porta de entrada para essa sociedade dominante, digamos, lá eles aprendem a ler e escrever, aprendem espanhol, aprendem a se defender economicamente. No entanto, reclamam muito que os valores, a cultura e a língua das populações indígenas não são respeitados. Então, dizem ‘para nós é muito importante, mas nos machuca’”.


1 comentário


Maria Cristina Gobbi
Maria Cristina Gobbi
19 de dez. de 2025

Parabéns, uma tema desafiador.

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