Primavera jovem? Onda de protestos da geração Z em Lima
- Portal Abya Yala
- 10 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Jovens tomam as ruas para protestar contra o governo
Por Graziela Aguiar e Sofia Caldas

As manifestações que vêm ocorrendo há semanas na capital Peruana ,se intensificaram no dia 28 de setembro, quando centenas de pessoas se juntaram para protestar contra o governo da presidenta Dina Baluarte, a reforma do sistema previdenciário e a promulgação da lei de anistia.
Durante o conflito alguns grupos utilizaram de pedras e artefatos incendiários contra as forças de segurança, que responderam atirando balas de borracha e gás lacrimogêneo, isso resultou em 19 pessoas feridas.
Essa tensão interna não é uma novidade, o Peru vem enfrentando uma crise política desde 2015, envolvendo esquemas de corrupção, renúncias, Impeachments e até ameaças de golpe. Somente nos últimos 10 anos, o país teve 6 presidentes, chegando a ter 3 regentes no período de uma semana.
Reforma da previdência.
A reforma do sistema previdenciário, recentemente aprovada pelo Congresso, obriga os trabalhadores autônomos a contribuir com o sistema privado de aposentadorias, além de tornar obrigatório o registro a partir dos 18 anos de idade .
Segundo o geografo especialista em política latino-americana Prof Dr André Kaysel “a reforma atinge desproporcionalmente os mais jovens” isso segundo ele se deve ao fato principalmente por ser um “sistema previdenciário muito injusto, onde cada um só se aposenta com aquilo que pode aportar.”
Além do fato de que no Peru historicamente as aposentadorias sempre foram limitadas e muitas vezes incertas, por isso a reforma desperta tanta insatisfação na população. A medida foi vista como despropositada, principalmente pela situação trabalhista no país, onde as taxas de trabalho informal beiram os 72% , ou seja, a maioria da população não possui direitos trabalhistas e nem uma renda estável.
Lei da Anistia
A lei de Anistia que foi promulgada por Dina Baluarte em agosto deste ano beneficia militares, policiais e membros da comissão de auto defesa, processados pelos crimes contra os direitos humanos cometidos durante a guerra do Estado peruano contra a o movimento revolucionário de Tupac Amaru e o Sendero Luminoso entre 1980 a 2000.
A medida, vista como um grande retrocesso e apoio à impunidade, foi duramente criticada pela população e por organizações de direitos humanos.
“Uma lei de anistia que viola os padrões internacionais e representa um retrocesso na busca por justiça pelas graves violações de direitos humanos cometidas durante o conflito armado interno do Peru contra rebeldes maoístas”, denúncia Volker Turk, alto comissário da ONU para os direito humanos
O que foi o conflito?
Um dos períodos mais difíceis da história peruana, foi o conflito armado entre o Estado peruano e as guerrilhas de esquerda Sendero Luminoso e o Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) entre 1980 e 2000.
Estima -se que o número de mortes pelo confronto chegue a 70 mil, sendo a maioria deles vítimas civis.
Posteriormente, a Comissão da Verdade e Reconciliação, implantada para investigar os crimes e as violações de direitos humanos ocorridos no embate Estado x guerrilhas, estimou em 70 mil o número de mortos nos confrontos.
Onda global
Os protestos na capital peruana fazem parte de uma onda de manifestações que vêm acontecendo pelo mundo, protagonizados pela geração Z (nascidos entre 1995 e 2010), os chamados “nativos digitais”.
É possível notar aspectos bem característicos da geração, como a alta exposição midiática e a grande mobilização e organização pelas redes sociais.
Para André Kaysel, há uma “transnacionalização dos meios de comunicação digital, que por sua vez aceleram enormemente a circulação de ideias, discursos e repertórios de mobilização política”. Porém, ele chama atenção para o fato de que os meios digitais não são neutros e possuem uma “arquitetura algorítmica que exerce um efeito distorcivo sobre o debate público em vários níveis, sob a pretensa imagem de uma "agora livre" onde todos falam em múltiplas direções”.
A onda de protestos teve início no Nepal no dia 08 de setembro, com mobilizações que culminaram na derrubada do então primeiro-ministro Khadga Prasad Oli. Os manifestantes criticavam principalmente o governo, a corrupção generalizada, a falta de oportunidades econômicas, e a extrema desigualdade social que assolava o país.
Além dos nepaleses, jovens da Indonésia, Madagascar e o Marrocos também lideraram protestos similares, todos com foco na crítica ao Estado.
O emblema adotado pelo movimento é a bandeira do anime One Piece ,animação que retrata o capitão Luffy e a sua tripulação, eles viajam em busca de um tesouro lendário. A história explora a luta contra poderes opressores e a busca pela liberdade, e a bandeira representa a esperança e resistência contra governos e ideias repressoras.

O futuro do Peru
De acordo com o instituto de pesquisas Ipsos Peru, a atual presidenta, Dina Baluarte governa com apenas 2% de aprovação, sendo uma das líderes menos populares do mundo.
Apesar disso, Kaysel coloca que a impopularidade da presidenta é, ao mesmo tempo, sua fraqueza e sua força. “Por não ter qualquer apoio próprio na sociedade, Baluarte é uma ferramenta muito útil para os poderes "de facto" que se expressam no parlamento, por isso se manteve no poder e pode reprimir à vontade a base social de seu antecessor”, diz.
Para o cientista político, mesmo que a presidenta seja derrubada, dificilmente os protestos atuais darão origem a uma força política capaz de combater a longa crise institucional que assola o Peru.
O especialista ainda destaca que os protestos atuais parecem ter muito mais impacto, já que mobilizam a juventude de Lima. “Em uma sociedade, ao mesmo tempo fragmentada e centralizada em sua capital, o que não chega a Lima ou não parte dalí, tem pouca capacidade de abalar as estruturas oligárquicas de poder”, afirma.
André finaliza dizendo as suas previsões para o futuro do país: “talvez pela falta de concorrentes, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, já derrotada anteriormente , finalmente leve a eleição.” e na sua opinião ele não vê nenhuma “alternativa democrática” muito à vista para sociedade peruana.





Muito bom. Parabéns ao grupo