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Recorrente violência e insegurança marcam vida na Colômbia

  • Foto do escritor: Portal Abya Yala
    Portal Abya Yala
  • 19 de set. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 26 de set. de 2025

Entenda como o atentado a Uribe intensifica questionamentos e simboliza o poder das organizações paralelas Por Grupo 3 - Ana Helena Masson e Ana Luiza Silva


No começo de junho de 2025, o senador e pré-candidato à Presidência da Colômbia Miguel Uribe Turbay, de 39 anos, foi baleado na cabeça enquanto participava de um ato político em Bogotá, capital do país. 


O prefeito Carlos Galán confirmou que o atirador foi detido. O Ministério Público informou que Uribe foi baleado duas vezes e que o suspeito é um menor de 15 anos que portava uma pistola Glock 9 milímetros.


Por outro lado, o presidente colombiano, Gustavo Petro, afirmou que o autor do crime é um assassino de aluguel. “Esse ato de violência é um ataque não apenas à integridade pessoal do senador, mas também à democracia, à liberdade de pensamento e ao exercício legítimo da política na Colômbia”, acrescentou, em nota à imprensa.  


O acontecimento, somada à falta de sucesso da política de Paz Total, despertou a atenção de especialistas e de membros da sociedade civil com relação à segurança pública e ao crescimento da violência no país. 


Histórico da Violência no país


Os conflitos colombianos existem desde o tempo da colonização. No entanto, do século 19 ao 20, houve níveis de violência fratricida que marcaram o futuro da Colômbia. O enfrentamento entre partidários liberais e conservadores cravou uma relação de forças que alimentaria todos os conflitos futuros do país. 


Em 1948, o assassinato do liberal Jorge Eliecer Gaitan representou a expressão mais profunda do conflito. Ele era o principal nome do Partido Liberal Colombiano e uma das principais figuras políticas da época. 


Sua morte gerou grande revolta popular, em um evento que ficou conhecido como “El Bogotazzo” e marcou o início de uma guerra civil entre os polos políticos que perdurou por 10 anos. Esse período ficou conhecido como “A Violência” e mais de 200 mil pessoas morreram. 


Décadas mais tarde, Manuel Marulanda Vélez, um combatente treinado nas guerrilhas liberais dos anos 50, foi derrotado e fundou o Bloco Sul, que em 1966, adotou o nome de FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Quase na mesma época, foi formado o Exército de Libertação Nacional (ELN), inspirado na Revolução Cubana. 


Apenas nos anos 80, o objetivo dessas forças secundárias se tornou tomar o poder. A ascensão de grupos paramilitares de direita, encorajados por setores das forças armadas, proprietários de terras, empresários, políticos e traficantes de drogas, aprofundou a violência do confronto. 


Em 2000, os Estados Unidos começaram a prestar assistência técnica e econômica na luta contra-insurgente e antidroga, no âmbito do Plano Colômbia - estratégia que combateu o narcotráfico e a subversão no país, entre 1999 e 2016, quando foi substituído pelo Paz Colômbia. Em 15 anos, foram investidos cerca de US$10 bilhões. Esse dinheiro foi utilizado para a modernização das forças armadas e da polícia, que, hoje, somam cerca de meio milhão de soldados.


Houveram algumas tentativas de paz. As mais significativas foram em 1984, 1991 e 1998 e falharam. 


Entre 2002 e 2010, durante o governo de Álvaro Uribe (Centro Democrático) uma grande ofensiva dizimou as forças de guerrilha e os maiores líderes foram mortos. 


Entre 2015 e 2023, assassinatos e ameaças contra líderes políticos quase triplicaram e um progressivo enfraquecimento do espaço democrático tomou conta. 


Na última década, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), grupos criminosos regionais alcançaram rentabilidade sem precedentes e aproveitaram o crescimento exponencial da produção de cocaína que dobrou no período. 


Para Will Freeman, pesquisador do Council on Foreign Relations (CRF), “prefeitos, governadores e assembleias locais passaram a deter poder real, incluindo controle policial e contratos públicos, enquanto estruturas partidárias tradicionais se enfraqueceram, criando lacunas que organizações criminosas preencheram sistematicamente”. 


Nesse contexto, a Colômbia vive a maior onda de violência dos últimos 10 anos, que contaram com diversos ataques de grupos armados que deixaram mais de 100 mortos e 36 mil deslocados. 


Com o histórico violento, alcançar uma melhora na situação de segurança na Colômbia se tornou importante missão para os governantes do país. Ao assumir o cargo de presidente, em 2022, Gustavo Petro instaurou a chamada lei da “Paz Total”, segundo a qual investiria esforços para dialogar com os grupos armados a fim de negociar um apaziguamento. A política, entretanto, tem sido criticada pela população e pela comunidade internacional, visto que os ataques e o sentimento de insegurança perduram.


Influência da Cocaína


No cenário de violência do país, o narcotráfico surge como um dos principais fatores atrelados a ela. A Colômbia é o maior produtor de cocaína do mundo, responsável por 75% da produção da droga, que é extraída das folhas da planta de coca, um cultivo milenar na região. Em sua maioria, a produção acontece em pequenas propriedades e é extremamente lucrativa. 


Para Fernando Mendonça, professor de Geografia, a produção de cocaína, no terceiro país mais desigual do mundo, surge como uma alternativa. “As pessoas vislumbram lucro, um padrão de vida que dificilmente elas vão ter num país onde a desigualdade é muito grande”, pontua. 


O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) estimou, em um estudo publicado em agosto de 2024, que a renda média de uma família cocaleira na Colômbia beire os 1,4 mil dólares (R$ 7.933) por ano, menos da metade do salário mínimo legal no país, onde a informalidade alcança 56%. Segundo o estudo, 60% dos entrevistados disseram plantar coca devido à  ausência de outras opções econômicas.


Cultivo de coca se distribui por diversas áreas do país. (Fonte: Reprodução/ UNODC)
Cultivo de coca se distribui por diversas áreas do país. (Fonte: Reprodução/ UNODC)

“A América Latina inteira foi colonizada de maneira exploratória pelos europeus e isso deixou marcas profundas em todo o desenvolvimento da região. Esse processo teve como uma característica importante a concentração fundiária. Você tinha, por exemplo, grandes produtores rurais, produtores de café e que são latifundiários, mas também tinha uma população rural enorme sem terra ou com pouca terra e que vai buscar na produção da droga em pequenas propriedades o sustento. E a partir dessa e de outras razões começam essas formações de produtores que acabam formando cartéis de droga na Colômbia”, explicou o professor.


Segundo ele, o conflito entre os produtores de grandes e pequenas propriedades levou à criação dos grupos dissidentes que atuam há anos no país. Grupos esses, que influenciam em grande medida na segurança e no cenário político. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN) são os com maior atuação no território.


Para Fernando, a influência na política também vem do narcotráfico. “Nós estamos falando de poder e o poder político é muito importante para quem tem o poder econômico e a droga nas mãos. Então, eu vejo com certeza uma participação muito grande, não diria no poder executivo diretamente, mas principalmente por trás do poder legislativo, porque nós estamos falando de vários políticos dentro de um congresso e que muitas vezes, para chegar lá, chegaram através do financiamento dessas drogas”. 


Nesse sentido, o problema se estende à ordem social e econômica. “Uma tentativa muitas vezes é de levar o exército para apaziguar, mas isso cria um embate que, com certeza, vai gerar violência e mortes. Eu vejo que pela negociação, tanto a direita como a esquerda ainda não conseguiram, porque é muito mais embaixo, você não tem condições realmente de promover essa distribuição de renda e sanar esses problemas sociais”, finalizou o professor.


1 comentário


Maria Cristina Gobbi
Maria Cristina Gobbi
02 de nov. de 2025

Parabéns para as duas. O material ficou bem bacana.

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