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Febre Oropouche: arbovirose avança na América Latina e Brasil é o epicentro dos casos

  • Foto do escritor: Portal Abya Yala
    Portal Abya Yala
  • 20 de set. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 24 de set. de 2025


Antes restrita a áreas isoladas, a doença viral ganhou força e preocupa sistemas de saúde latino-americanos 

Por Grupo 4 - Raul de Lara

Mosquito Maruim, responsável pela febre oropuche - Foto: Conselho Federal da Farmácia/Reprodução
Mosquito Maruim, responsável pela febre oropuche - Foto: Conselho Federal da Farmácia/Reprodução

Em 2025, a febre Oropouche deixou de ser uma doença associada apenas a surtos pontuais na região amazônica tornando-se um desafio para a saúde pública latino-americana.


De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), até 27 de julho foram confirmados 12.786 casos nas Américas, distribuídos entre Brasil, Panamá, Peru, Cuba, Colômbia, Venezuela e Guiana. Outros países, como Chile, Uruguai, Canadá e Estados Unidos, notificaram casos importados.


René Marcelo, estudante do Instituto de Biociências da Unesp Botucatu, explica que o avanço das arboviroses na América Latina é causado por diversos fatores, especialmente relacionados ao ambiente e infraestrutura. "A falta de saneamento básico em muitas áreas, a água parada, especialmente em lugares com céu aberto, favorece a reprodução dos mosquitos. Além disso, a temperatura tropical e a umidade constante também ajudam no ciclo de vida do mosquito. Isso cria um ambiente ideal para a proliferação", afirma René.

Ele também destaca que a mobilidade de pessoas entre diferentes áreas é um fator importante: "O grande trânsito de pessoas, principalmente em cidades como São Paulo, facilita a disseminação dessas doenças de um lugar para outro."


Sob orientação da OPAS e da Organização Mundial da Saúde (OMS), países latino-americanos vêm padronizando protocolos de vigilância, ampliando a capacidade laboratorial e discutindo medidas de prevenção que incluem tanto estratégias coletivas de controle vetorial quanto a proteção individual da população.


Apesar de a maior parte dos registros se concentrar no Brasil, que responde por mais de 90% dos casos confirmados, o avanço do Oropouche em outros países da América Latina também chama atenção. O Panamá registrou 501 casos, o Peru notificou 330, Cuba confirmou 28, a Colômbia reportou 26, a Venezuela contabilizou 5 e a Guiana apontou 1 caso. Embora esses números sejam menores, sinalizam que a circulação viral está em expansão, o que pode facilitar a instalação de surtos em áreas urbanas e densamente povoadas.


No Panamá, a maior concentração se deu nas províncias de Darién e Panamá Leste, no Peru, os casos se espalham por oito departamentos amazônicos e andinos, em Cuba, os registros se distribuem por Pinar del Río, Villa Clara, Guantánamo e Havana, incluindo quatro quadros de síndrome neurológica.


Sintomas e diagnóstico


O Oropouche provoca sintomas semelhantes a outras arboviroses, o que dificulta a detecção imediata: febre alta de início súbito, fortes dores de cabeça, mal-estar, dores musculares e articulares, náusea e, em alguns casos, erupções vermelhas na pele.


Arboviroses são doenças virais transmitidas por mosquitos, e essa característica comum explica a dificuldade em diferenciá-las rapidamente, como aponta René Marcelo: “Os sintomas da febre Oropouche, como febre alta, dores de cabeça, mal-estar e dores musculares, são muito parecidos com outras arboviroses, como a dengue e a chikungunya. A dificuldade está no diagnóstico, pois as doenças são muito semelhantes. Além disso, a falta de testes rápidos para diagnosticar essas doenças também contribui para essa confusão”, afirma Marcelo.


A maioria dos pacientes se recupera em até três semanas, mas há relatos de reinfecções após a fase aguda. Casos graves com complicações neurológicas, como meningite e encefalite, também foram descritos e estão sob investigação.

Segundo atualização da OPAS, cinco óbitos foram atribuídos ao Oropouche em 2025, sendo quatro no Rio de Janeiro e um no Espírito Santo. Embora raras, essas mortes chamam a atenção para a gravidade potencial da doença.


O diagnóstico só pode ser confirmado em laboratório, por meio de RT-PCR. Como não existe vacina ou tratamento específico, ocorre o atendimento médico de suporte voltado a aliviar os sintomas.


Isso torna a identificação precoce ainda mais essencial para evitar sobrecarga nos sistemas de saúde e confusões com outras doenças endêmicas da região, como dengue, chikungunya e zika.


Ciclo de transmissão do vírus. Foto: Secretaria de Saúde Pública do Rio Grande do Norte/Reprodução
Ciclo de transmissão do vírus. Foto: Secretaria de Saúde Pública do Rio Grande do Norte/Reprodução

Vetores e a influência ambiental


O vírus é transmitido principalmente pelo maruim Culicoides paraensis, conhecido popularmente como “mosquitinho pólvora”. Pequeno e quase imperceptível, ele é capaz de se infiltrar por telas e frestas de residências, tornando o controle mais difícil. Mosquitos do gênero Culex, comuns em áreas urbanas, também são apontados em estudos como potenciais vetores.


Segundo o estudante do Instituto de Biociências da Unesp Botucatu, o avanço da urbanização desordenada, o desmatamento e as mudanças climáticas, especialmente períodos de chuvas intensas seguidos de calor, criam condições favoráveis para a proliferação desses vetores: "O calor influencia diretamente tanto na velocidade de reprodução dos mosquitos quanto no tempo de incubação do vírus. Com temperaturas mais altas, o ciclo de vida do mosquito é acelerado, e ele se reproduz mais rapidamente", afirma Marcelo. Ele também ressalta o papel das chuvas intensas: "Quando há chuvas fortes, o ambiente se torna mais úmido, e a água parada acaba criando locais ideais para a reprodução dos mosquitos."


Um dos pontos de maior alerta entre autoridades de saúde é a possibilidade de transmissão da mãe para o feto durante a gestação. Embora não haja consenso científico definitivo, a hipótese motivou a realização de uma reunião em São Paulo, nos dias 20 e 21 de agosto, na qual representantes de vários países latino-americanos acordaram padronizar definições de caso e protocolos de coleta biomolecular, como placenta, cordão umbilical e soro neonatal.


O Brasil é, até agora, o epicentro da febre Oropouche no continente. Dos 12.786 casos registrados em 2025, 11.888 ocorreram em território brasileiro, distribuídos em 20 estados. O Espírito Santo lidera a lista, com 6.322 confirmações, seguido pelo Rio de Janeiro, com 2.497. Os dados apontam casos também em Minas Gerais (1.366), Ceará (693), Paraíba (645), São Paulo (143), Amapá (99), Tocantins (22), Bahia (11), Alagoas (5) e até no Distrito Federal (1), mostrando a dispersão nacional. Mais da metade das infecções no Brasil (52,4%) foram registradas em homens, com maior concentração na faixa etária de 30 a 39 anos.


A situação brasileira preocupa por duas razões principais: a magnitude dos números e o risco de disseminação para regiões metropolitanas com grande mobilidade populacional. Por isso, o país tem desempenhado papel de liderança nas discussões regionais, apresentando protocolos laboratoriais e compartilhando experiências de vigilância epidemiológica.


Medidas de contenção e recomendações


Sem vacina disponível, a prevenção depende de três pilares:


  • Controle vetorial: reduzir criadouros, manejar áreas de vegetação e controlar populações do mosquito em locais de risco.

  • Proteção individual: uso de repelentes (à base de DEET, icaridina ou IR3535), roupas de manga longa e mosquiteiros de malha ultrafina.

  • Capacidade laboratorial: fortalecer laboratórios de referência para realização de RT-PCR, garantindo diagnósticos rápidos e confiáveis.


Para viajantes, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos publicou mapas de risco atualizados, enquanto a OMS reforçou que não há restrições internacionais de viagem, mas recomendou medidas de proteção individual.


1 comentário


Maria Cristina Gobbi
Maria Cristina Gobbi
19 de dez. de 2025

O material ficou excelente. A entrevista muito boa. Não conhecia essa febre. Parabéns ao grupo.

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