Sistema de saúde em colapso agrava epidemia de cólera entre deslocados no Haiti
- Portal Abya Yala
- 26 de set. de 2025
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Doença que ressurgiu em 2022 se espalha em campos superlotados onde saneamento básico é inexistente, e resposta emergencial esbarra na falta de recursos.
Por: Grupo 5 - Elisa Brassoroto e Mirela Zinsly

FOTO: © Unicef | Odelyn Joseph
Uma epidemia volta a atingir o Haiti, encontrando suas vítimas nos campos de deslocados internos no país, onde as condições sanitárias são precárias e a superlotação cria um cenário de crise humanitária.
De acordo com informações da ONU, a população residente dos campos é formada por pessoas forçadas a fugir da violência das gangues, e com o ressurgimento da doença, acabam sendo os mais afetados visto que a enfermidade já ultrapassa taxas de mortalidade consideradas de emergência.
A doença havia sido declarada eliminada no país em fevereiro de 2022, mas voltou a circular em outubro do mesmo ano, como consequência do colapso do sistema de saúde.
Desde janeiro de 2024, estima-se que mais de 2.8 mil infecções tenham sido registradas em todo o país, no total, 91 casos confirmados em laboratório e 36 mortes. Em março de 2025 foram registrados quase 1.300 casos por infecções, incluindo 19 mortes apenas naquele mês, números que segundo o jornal The Haiti Times, não geraram alertas de emergência das autoridades locais.
Aumento de casos em campos de deslocados
Os primeiros casos da atual epidemia começaram em março em pelo menos três locais para deslocados internos na capital do país. A reincidência dos casos foi registrada em comunidades como Cité Soleil e Bourdon.
Em Fonds Baptiste, Arcahaie, 23 pessoas morreram e mais de 80 foram hospitalizadas em março. Em Bourdon, a comunidade local associou oito mortes à ravina altamente poluída que serve como fonte de água.
“Depois que as famílias nos informaram sobre esses casos, a ameaça permanece porque nenhuma sessão de descontaminação ocorreu no campo”, disse Jhonny Élysée, presidente do comitê do campo de Bois-Verna, ao The Haiti Times.
O presidente também afirma que, depois dos casos o campo não recebeu nenhum apoio móvel ou centro de emergência.
A crise se agravou devido ao colapso do sistema de saúde haitiano, que viu mais de 30 hospitais e clínicas fecharem por conta de ataques de gangues; hospitais e abrigos que permanecem abertos estão superlotados.
A taxa de mortalidade pela cólera no país agora é de 1,65%, ultrapassando o limite de 1% considerado emergencial pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Histórico
O Haiti passou mais de um século sem registrar casos de cólera até outubro de 2010, quando a doença foi registrada novamente. O resultado foi uma epidemia devastadora que, de acordo com a ONU, deixou 820 mil doentes e quase 10 mil mortos. O último caso antes da recente epidemia havia sido confirmado em 2019.
As ações para conter a calamidade no país são limitadas pela extrema falta de recursos. O Plano de Resposta Humanitária para o Haiti foi orçado em US$908 milhões, mas conta com apenas 8,7% dos fundos necessários.
A ONU têm distribuído comprimidos para purificação de água, sal para reidratação oral e instalado estações de lavagem de mãos. Campanhas de vacinação foram iniciadas, mas a desinformação e campanhas anti vacina atrasaram a adesão mais ampla da população, que segue sofrendo com a doença.
O que é a cólera?
A cólera é uma doença infectocontagiosa aguda causada pela bactéria Vibrio cholerae. Sua transmissão é fecal-oral, ocorrendo principalmente através de água e alimentos contaminados. É comum em áreas com saneamento básico precário. Como explica o portal Dr. Drauzio Varella
O principal sintoma é a diarreia, sem sangue ou pus, que pode levar a uma desidratação grave, insuficiência renal e morte em poucas horas se não for tratada. O tratamento consiste na reidratação oral ou intravenosa. A prevenção inclui lavar as mãos com água e sabão, purificar a água com hipoclorito de sódio e higienizar adequadamente os alimentos.
Enquanto a comunidade internacional não destinar mais recursos e a violência das gangues continuar impedindo o acesso humanitário, a população deslocada do Haiti permanece refém de uma epidemia negligenciada.





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